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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Co-autoria dos textos do Livro Comemorativo dos 50 anos da Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima



Memória Viva da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima...

O bairro chamado das Avenidas Novas, que envolve uma parte substancial da freguesia de Nossa Senhora de Fátima, é um bairro que sofreu uma grande evolução, particularmente, nas últimas décadas. Os meus Pais foram viver para a paróquia, então, era a paróquia de D. Sebastião da Pedreira, mas já estava construída a igreja de Nossa Senhora de Fátima, para um prédio que se chamava o Prédio Novo, porque era mais recente em relação aos prédios que o ladeavam. Era um bairro essencialmente residencial, com alguma diferenciação sociológica, consoante as zonas e com uma população juvenil muito significativa, havia muitos casais com crianças, com adolescentes e com jovens, eu lembro-me que, quando ia para o liceu Camões, onde andei 7 anos a Av. 5 de Outubro, de manhã cedo, estava cheia de jovens que iam a pé para o liceu e o bairro tinha, como era próprio daquela época, muitas pequenas lojas- desde uma carvoaria que vendia carvão e petróleo para as braseiras e para os aquecimentos até a uma oficina de automóveis, havia várias leitarias como, na época, se chamavam e, depois, havia a venda à porta (a venda da fruta, a venda do leite,...), os vendedores subiam pelas escadas das traseiras, as escadas de serviço nas traseiras dos prédios e vendiam os produtos à porta. Lembro-me que, no Verão, havia imensos pregões associados à venda, por exemplo, de figos e de outros produtos. Progressivamente, como acontece em todas as grandes cidades, estas zonas residenciais como que são empurradas para a periferia- houve, nos anos 50-60, uma grande migração do interior do país para a cidade e pessoas que vieram à procura de empregos e de melhores condições de vida e as zonas residenciais, cada vez mais, são projectadas para a periferia e o terciário começa a invadir essas mesmas zonas, portanto, temos, assim, do ponto de vista da organização da cidade, a parte da Baixa, que é, como dizem os sociólogos, o Casco Velho e, depois, temos a zona residencial, a zona concentrada nessa zona mais velha, os organismos públicos e a zona comercial, depois, a zona residencial e tudo isto começa a expandir-se e a zona do chamado Casco Velho começa a despovoar se, a zona dos escritórios começa a avançar para a antiga zona marcadamente residencial e as residências começam a situar-se nas zonas de periferia e com isto estas avenidas novas que referia, que faziam parte da freguesia de Nossa Senhora de Fátima, começam a transformar-se não só porque há menos residentes, como também porque, associada a esta expansão, há a implantação das grandes superfícies comerciais que como que arrasam os pequenos comerciantes e, portanto, todas estas vendas ambulantes de que eu falava e, inclusivamente, do próprio jornal (em minha casa lia-se o Diário de Notícias, o jornal era atirado da rua para a varanda do terceiro andar assim o jornal enrolado, dobrado, em forma de triângulo e batia no estore e caía para a varanda), acabam por se concentrar, enfim, sobretudo, nas grandes áreas comerciais e começa a desconfiguração dos próprios bairros.
Lembro-me, por exemplo, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, na missa dominical ao meio-dia, a igreja estava completamente cheia, sobretudo, no Natal, havia gente de pé por todos os lados, portanto, havia uma densidade de frequência muito grande, o bairro, hoje, tem talvez um terço da população residente o que, evidentemente, faz com que nos fins-de-semana a igreja e as ruas estejam muito mais vazias, onde é possível estacionar o carro sem qualquer espécie de dificuldade e é assim que, nesta freguesia de Nossa Senhora de Fátima, como em geral em todas as freguesias das cidades, as mutações se vão operando.
Em relação às minhas referências à Igreja de Nossa Senhora de Fátima ela é, de facto, um monumento que foi objecto do Prémio Valmor logo no início da sua inauguração em 1938, ano em que também foi criada a paróquia, desmembrando-se de S. Sebastião, que foi criada muito pouco tempo antes da edificação da igreja. É, de facto, uma igreja muito rica do ponto de vista arquitectónico e do ponto de vista artístico, porque contém um conjunto de arte moderna, tanto em esculturas, como em pinturas, como em mosaicos, como em vitrais, onde, realmente, colaboraram os melhores artistas da época. O Cardeal Cerejeira, ministro de então, quis que esta igreja que se situava numa zona nobre fosse uma igreja nova e que não fosse a cópia de uma igreja antiga, portanto, ele fomentou a criatividade daquela igreja e, na altura, não foi sempre bem compreendido, mas, inclusivamente, o Cardeal António Ribeiro, por ocasião dos 50 anos, do quinquagésimo aniversário da inauguração da igreja, voltou a sublinhar a importância artística da igreja, dizendo que, nesses últimos 50 anos, nenhuma igreja se tinha equiparado em termos de riqueza arquitectónica e artística a esta e que, se muitas das novas igrejas tivessem a qualidade desta, teríamos aqui assim uma nova escola de arte sacra.
Posso contar dois episódios que talvez sejam significativos- um tem um carácter mais humorístico, outro tem um carácter mais sério-: fui baptizado na Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a minha Mãe contava-me que o sacerdote que me baptizou, quando ela disse o meu nome, que é Tomaz Pedro, ele percebeu ou brincou, disse-lhe : “ai, Tomaz Preto, um menino tão branquinho!” e, de facto, eu sempre fui muito branco (risos) e a minha Mãe disse: “não, é Pedro” e ele disse “ah, está bem, Minha Senhora, mas, sabe, eu também sou Delgado de nome, mas, como vê…”- ele era muito gordo. Ultimamente, eu quando fui eleito bispo, estava a viver na residência paroquial havia 2 anos e meio e dava uma pequena colaboração à paróquia, porque tinha um trabalho noutra área pastoral, e lembrei-me de sugerir ao Senhor Patriarca de então, o D. José Policarpo, que a minha ordenação episcopal fosse lá na igreja de Fátima, porque eu tinha sido lá baptizado, a minha vida cristã estava bastante ligada àquela igreja, os meus Pais, quando morreram, estiveram nas capelas funerárias da igreja e, portanto, vivemos ali momentos intensos do ponto de vista espiritual e não só- tinha família que vivia ali, também, naquela zona e os que morreram passaram por lá, vários e, além disso, a igreja era grande, portanto, comportava muita gente. A igreja tem cerca de 800 lugares sentados, mas, com as pessoas que à volta, nas coxias, podem estar alojadas de pé, cabem cerca de 3.000 pessoas. Então, tive de imaginar quais eram as minhas insígnias episcopais para colocar no anel e, então, recorri ao arquitecto Luís Cunha, que vive exactamente em frente da porta principal da igreja, pedindo lhe para ele fazer o desenho das insígnias e, eis que ele me perguntou se eu tinha alguma ideia e eu não levava assim grande ideia, apesar de já ter o lema escolhido que é: “Vim para servir”. Então disse-me: “veja lá o que é que imagina?”…eu olhei para o vitral do coro, um vitral de Almada Negreiros que estava iluminado e que contém a Santíssima Trindade, e disse: “está ali o motivo que pode inspirar o seu desenho das minhas insígnias, que Será a Santíssima Trindade- o Pai, O Filho e o Espírito Santo. Isto foi em 1998, e o Papa João Paulo II tinha determinado que a igreja, nos três anos anteriores ao Grande Jubileu do ano 2000, iria reflectir de uma forma aprofundada, em cada um dos três anos, numa das Pessoas da Santíssima Trindade- o Pai, o Espírito Santo e O Filho-, aquele ano era o ano do Espírito Santo, era o ano intermédio, e eu disse: então, se calhar, fica interessante a Santíssima Trindade e assim foi – ele desenhou depois o símbolo do Pai, que É uma Mão, do Filho, que É a Cruz, e do Espírito Santo, que É a Pomba, e, depois, fez uma memória descritiva e estes elementos aparecem, depois, também, numa incrustação em prata que eu tenho no ceptro. São, assim, dois episódios de que me lembro que, digamos assim, fizeram parte da minha vida.

Uma Nova Caminhada...

Desde que tomei posse como pároco desta igreja, tenho consciência de que este templo sagrado e a respectiva paróquia desempenham um papel simbólico muito significativo e marcante na freguesia de Nossa Senhora de Fátima. O Sr. Conde de Abranges, que foi durante muitos anos o Prior de Fátima, cuja conduta o fez ser sempre bastante interventor em termos de sensibilidade e responsabilidade social, garantindo um inestimável apoio espiritual e material à população, nomeadamente no que concerne ao desenvolvimento e consolidação das próprias infra-estruturas de que a paróquia, nesta altura, ainda dispõe. Era um homem muito marcado pela necessidade de intervenção activa e constante no seio da população e a sua acção foi crucial no sentido de intensificar e consolidar o espírito comunitário desta freguesia. Hoje, talvez a realidade sociológica se tenha alterado um pouco, comparativamente ao que era há umas décadas atrás, todavia, a dimensão social da presença da Igreja de Nossa Senhora de Fátima nesta freguesia continua a ser determinante e muito significativa, uma vez que se constatam, aqui, fundamentalmente, nesta época em que vivemos, núcleos com grandes carências económicas, que necessitam de uma acção cristã pronta e dedicada. A igreja tem procurado responder a estas solicitações e necessidades e faz todos os esforços para continuar com a sua missão humanizante, embora estejamos perante um envelhecimento da população da freguesia e da paróquia. Estamos, assim, com uma grande necessidade de renovação etária ao nível dos colaboradores pró-activos e solidários que se disponibilizam para acções de solidariedade local. De facto, sinto que há muitos potenciais campos de intervenção e é crucial motivar se e mobilizar-se gente nova para a acção cristã, uma vez que temos beneficiado da boa vontade e generosidade de um vasto e assíduo grupo de colaboradores voluntários, que dedicou grande parte da sua vida a acções solidárias, movido pela sua incomensurável fé, mas que, agora passados tantos anos, e face às naturais limitações que a idade lhe impõe, não pode prosseguir esse inestimável apoio missionário. Este é, de facto, um dos grandes desafios da presença da Igreja nesta e noutras freguesias do país - o de termos uma população bastante envelhecida que exige um cuidado diferente daquele de uma freguesia nova, caracterizada por outro tipo de problemáticas.
Todavia, hoje, a referência da acção paroquial à freguesia já não é assim tão marcante, alargando-se à dimensão da cidade, face à grande mobilidade que pauta a vivência citadina- há gente que reside aqui, sendo, como tal, fregueses de Nossa Senhora de Fátima, mas que tem a sua comunidade paroquial de celebração da fé noutras igrejas e noutros locais, tal como outras pessoas que vivem noutra parte da cidade vêm celebrá-la aqui. Estamos, assim, perante um tipo de mobilidade social que determina uma acção pastoral diferente daquela que ainda existe em zonas mais rurais do Patriarcado. Eu era o pároco de um concelho pequeno- Sobral de Montagraço- e, também, já lá verificávamos características similares próprias do urbanismo, porém, ainda havia uma população muito ligada ao seu território, ao seu concelho. Deste modo, embora o concelho estivesse numa fase de profunda transformação, era possível a actualização de relações interpessoais, mesmo entre os que não eram praticantes, face à relação de proximidade e à possibilidade de manutenção de um diálogo constante, contrariamente ao que acontece aqui, na cidade. O simples facto de aqui haver muitos serviços e empresas faz com que tenhamos que lidar com duas realidades sociais distintas- uma é a população residente, aqueles que estão aqui ao fim-de-semana, e outra é a população exógena que vai passando por aqui, durante os seus dias de trabalho ou face a uma vinda a Lisboa ou ao Hospital Curry Cabral, e que vê na igreja de Nossa Senhora de Fátima uma referência importante, que acaba por ser quase uma espécie de santuário de passagem que marca a vida destes visitantes.
Na minha modesta opinião, a presença da igreja tem como objectivo, necessariamente, a evangelização, a missão de tentar ajudar as pessoas a encontrarem-se e a encontrarem os caminhos que as conduzam a uma vida que as faça felizes, uma vida em abundância, como diz o Senhor Jesus, que só n´ Ele é que pode ser encontrada. E é isso que nos anima a nós crentes e ao serviço da Palavra de Deus e os esforços que fazemos é nesse sentido de procurar proporcionar às pessoas uma experiência de Fé, uma experiência de Igreja e, nesse sentido, há muito a fazer aqui, são muitos os desafios que nós, enquanto comunidade cristã, devemos aceitar, no sentido de criarmos um espaço de acolhimento nesta igreja, um espaço que ajude as pessoas a sentirem-se bem e espiritualmente reconfortadas.
A igreja de Nossa Senhora de Fátima, do ponto de vista arquitectónico, está, assim, muito bem conseguida. De facto, quando eu fui nomeado seu pároco, o primeiro contraste que senti foi agradável dado que me apercebi do sentido religioso que, imediatamente, se adquire quando entramos na igreja. Há quem se queixe de que o seu interior é muito escuro, mas é esse contraste da luz do sol exterior e deste ambiente interior de quase penumbra, de recolhimento e propício à oração, que a torna distintiva, ajudando-nos a perceber que entramos num espaço religioso. Com efeito, esse contraste quase poético entre a luz e a sombra, o ruído quotidiano da rua e o silêncio da igreja confere-lhe uma ambiência acolhedora. E a nós compete nos criar condições propícias ao diálogo, à oração em comunhão com o outro.
Na minha tomada de posse, o Sr. Patriarca frisou o seu desejo de que a influência simbólica e pragmática da Igreja de Fátima não se limitasse apenas à respectiva paróquia, mas que se assumisse como um pólo coesor que abrangesse toda a cidade na confluência da Fé e da Acção Cristãs. Tal intento vem em sequência da realização do Congresso da Nova Evangelização do qual o Sr. Patriarca foi uns dos promotores, cuja mensagem fulcral nos leva a reflectir sobre a necessidade da igreja não se dever limitar a ser uma prestadora de serviços, mas, também, de ser capaz de ir ao encontro de todos e de lhes levar a Boa-Nova do Evangelho, que É o Seu Tesouro. E a melhor via para se concretizar esse desígnio sagrado é a clara percepção da realidade em que as pessoas vivem. Uma revitalização da vida quotidiana de uma comunidade afirma-se como um desafio permanente, dando seguimento às preocupações e anseios do Sr. Patriarca, no sentido de uma dinâmica pró-activa de salutar descentração, que permita que possamos alargar os focos de atenção para além das nossas preocupações enquanto comunidade restrita, inserindo-nos num contexto mais lato, pautando-nos pela evolução do nosso papel evangelizador enquanto uma nova igreja que saiba lidar e acarinhar todas estas pessoas que desconhecemos, que por aqui passam em busca de conforto cristão.
O horário de abertura da igreja estende-se até às 14h, o que faz com que abranja a hora de almoço da maioria das pessoas que trabalham nos serviços que aqui se encontram implementados e reparo que há bastante gente que, nessa altura, entra para rezar, para se recolher no silêncio da oração, assumindo-se, de facto, esta igreja como um local acolhedor para quem está de passagem. Por essa razão, temos a obrigação moral de saber cativar as pessoas para dimensões pelas quais sabemos anseiam de forma premente, nomeadamente, quando em momentos importantes da sua vida procuram explicitamente os nossos acolhimento e orientação, ou noutros momentos nos quais nós, enquanto servidores de Cristo, temos de ter a sensibilidade para despoletar aquilo que existe latente no coração de cada um, como procura de um sentido mais profundo para a sua vida.

As vozes do palco da vida : Carmen Dolores na primeira pessoa…

Comecei na rádio tinha 14 anos, dizendo poesia e a interpretar teatro radiofónico num programa dirigido pelo meu irmão que, também, morou na Visconde de Valmor, na casa onde eu nasci, tendo lá morrido…Comecei a dizer poesia numa altura em que, ainda, não havia televisão e a rádio era o meio de comunicação de massas privilegiado, dado que era a grande companhia das pessoas, como hoje acontece em relação à televisão. Infelizmente, hoje, a rádio está um pouco posta de parte e é pena porque se revela uma óptima companhia perante a solidão. Tive, sempre, uma grande paixão pela voz, dado que a considero importantíssima como instrumento de comunicação e, quando miúda, gostava mais de ouvir falar do que de ouvir cantar, tendo uma paixão pela figura do locutor, que personalizava como um amigo que parecia que estava a falar só para mim e, por isso, quando eu tive a oportunidade, ingressei na rádio, aonde o meu irmão, que começou como organizador de programas de rádio e que foi actor, por amor à arte, também, cantava. Nessa altura, estávamos na Rádio Sonora, uma estação emissora que, depois, passou a chamar-se Voz de Lisboa, e foi, assim, que comecei, escolhendo os poemas que dizia…desde miúda, desde os cinco/seis anos, que o António, o meu irmão, me ensinou a dizer poemas e, mais tarde, achou que eu poderia fazê-lo na estação. Declamei poesia na Emissora Nacional e, depois, no programa semanal Poesia Música e Som, que fiz durante 8 anos, com o Miguel Cargueiros. Por vezes, os ouvintes escreviam-nos a pedir os versos que nós recitávamos e eu enviei imensas poesias de variadíssimos poetas; também, nos pediam fotografias e apaixonavam-se, frequentemente, pela nossa voz, uma vez que era através dela que falávamos ao seu coração. Ainda há pouco tempo entrei num táxi e o senhor disse me: “eu conheço a sua voz”… De facto, a voz e a dicção têm para mim uma importância extraordinária, pois ela é uma expressão artística e permite um contacto afectivo com o público, que se revela crucial.
A seguir, comecei a fazer cinema, estreei-me logo no sucesso que foi o Amor de Perdição, uma obra baseada num grande romance. Nessa altura, as pessoas eram mais românticas do que são hoje e toda a gente tinha lido esta obra do Camilo Castelo Branco, cuja adaptação cinematográfica despoletou umas grandes paixões por mim, enquanto personagem, tendo recebido cartas e declarações de amor lindíssimas de pessoas do país todo e, até, de África. Foi assim que uma grande amiga minha me começou a escrever- pediu-me uma fotografia, porque viu uma exposição em Angola, em Roberto Menezes e, então, escreveu-me, eu mandei-lhe uma fotografia, e começámos a corresponder-nos; depois, ela veio viver para cá para o continente e, hoje, somos grandes amigas, aliás sempre o fomos, desde então. Foi, assim, uma amizade duradoura e verdadeira que nasceu dos laços afectivos que criei com o público.
Algumas vezes, ouço alguns colegas meus dizerem que não têm paciência para estes contactos directos…Eu discordo completamente dessa visão, pois considero que essa aproximação é importantíssima e muito agradável, a pessoa vem falar connosco porque gosta do nosso trabalho e porque se identifica connosco, para além de que é a maneira que nós temos de o saber sem ser no teatro, no final, pelas ovações mais ou menos esfuziantes. Ainda hoje, sou invadida por uma imensa ternura quando as pessoas me falam dos folhetins radiofónicos que eu fiz nos anos 50 ou se referem ao Amor de Perdição, que eu fiz em 43.
No que toca às novelas, eu nunca fiz muitas, porque nunca tive muito tempo para isso e, agora, não quero, embora tenha tido alguns convites, dado que é muito cansativo e estou numa idade em que tenho de me poupar porque ainda quero viver alguns anos, porém, faço sempre imensas coisas, nunca estou parada, por exemplo, estou a escrever o segundo volume das Memórias e tenho outras participações, como nos recitais de poesia.
Mas há uma história curiosa ligada à primeira novela que fiz - a Passerelle-, foi depois de vir de Paris, mais ou menos nos anos 80, eu fazia de uma senhora muito sofredora que tinha um marido que era muito desagradável, que a tratava muito mal, que era o meu colega Filipe Ferrer que, infelizmente, faleceu o ano passado. A personagem, que já não me recordo como se chamava, tratava-me pessimamente e, um dia, tendo entrado no elevador da Glória, que tem aqueles bancos laterais, sentei-me e uma senhora que ia defronte de mim que, realmente, tinha um ar um bocadinho sofredor, olhou-me e disse-me: “que pena que eu tenho de si por causa do marido que tem”. Eu, de repente, achei que estavam a ofender o Vítor que, Graças a Deus, é óptimo, mas, depois, percebi e a senhora acrescentou: “Eu bem sei o seu problema, porque eu tenho isso lá em casa” e, então, começou a desabafar e a contar as suas mágoas… Entretanto, eu não sabia bem o que é que havia de dizer e limitei-me a acrescentar: “bem sim, realmente, é horrível as pessoas terem esses problemas”...Umas pessoas riram-se porque perceberam, porque me reconheceram, outras, talvez tenham ficado desconfiadas, não perceberam nada da conversa. Estas situações verificam-se porque as pessoas têm a sensação que nós somos como representamos, confundem a personagem com a actriz, o que é péssimo, porque eu já fiz de tudo na vida- já fiz desde Nossa Senhora a prostituta no teatro… De facto, torna-se complicada essa fase em que somos influenciados por essa imagem externa, por termos de nos adaptar a uma figura que não tem a nossa maneira de ser, que é muito distinta de nós. Todavia, sempre adorei desempenhar papéis diferentes de mim, uma vez que considero que quanto mais distinto é o papel mais apaixonante é e, realmente, desfrutei dessa sorte no teatro, pois representei muitas personagens totalmente opostas a mim; na televisão, aconteceu-me com menor frequência, porque, geralmente, nos últimos anos, desempenhava sempre o papel de boazinha o que, por vezes, me irritava um pouco, porque se revela muito menos interessante, apesar de, para o público, ser mais simpático.
Havia grandes actrizes antigas que só queriam fazer papéis simpáticos para o público gostar delas, dado que o vilão é sempre mal visto e as pessoas convencem-se que as personagens que representam é que as afirmam publicamente. Na minha opinião, devemos dar o exemplo, porque somos figuras públicas, pela forma como nos comportamos, pela imagem que transmitimos ou até pelas entrevistas que concedemos, mas não através dos papéis que representamos... Hoje em dia, a nossa comunicação social, por vezes, explora certas fases da vida dos artistas de uma forma errónea e irrelevante, quando o público se interessa por esses conteúdos é porque já o habituaram à bisbilhotice, a saber da vida particular dos outros. Acho que isso é irrelevante, o que interessa é a arte e, por vezes, há um fascínio que as pessoas que se interessam pela arte têm pelo teatro, pelo cinema ou pela televisão, pelo artista, do qual comungo… O meu Pai era jornalista e esteve muito ligado ao teatro e fez muitas traduções para a Amélia Rey Colaço, para a Palmira Bastos, portanto, eu, desde criança, que me habituei a ouvir falar nessas pessoas, nesses nomes que não eram “monstros sagrados” para mim, mas sim pessoas com talento, que existiam, que telefonavam lá para casa para falar com o meu Pai, e, como tal, embora não tivesse contacto directo com elas, sabia que existiam, que não eram fachadas, eram seres humanos e isso era extraordinariamente importante. Talvez por isso eu tenha tanto orgulho em ser actriz, até porque, quando me estreei, houve grandes problemas com a minha Mãe e o meu Pai- eu tinha 15 anos quando o meu Pai morreu e, portanto, a minha Mãe sentiu-se muito incomodada quando eu vim para o teatro, dado que a rádio era uma coisa, o cinema outra completamente diferente. A minha Mãe, por vezes, ia comigo às filmagens, mas, já, o teatro era uma actividade mal vista nessa época, os actores não eram considerados pessoas recomendáveis, segundo aqueles padrões, e tive certos problemas em deixarem-me entrar no meio. Isto porque o teatro estava associado a uma vida mais boémia, o que colidia com a moral das famílias mais conservadoras, eu lembro-me, contei isso até nas minhas Memórias…A minha Mãe e as amigas dela diziam que, com certeza, eu iria ser expulsa do liceu por estar a fazer o filme (porque eu ainda estava no liceu quando fiz o Amor de Perdição), mas, pelo contrário, foi um delírio no liceu, e, aliás, (eu conto isso nas Memórias), lembro-me tão bem, a minha professora de Moral gostava imenso e vinha-me perguntar quanto eu ganhava. Mas, claro, as pessoas foram-se habituando e acho que isso tem importância no comportamento dos actores, até porque as pessoas começaram a encontrar mais os actores na rua, dado que, antigamente, eu, que ainda trabalhei com a Palmira Bastos e com a Maria Amélia Rey Colaço, lembro-me que a Palmira, que ia sempre de táxi da rua Braamcamp, onde morava, para o Teatro Nacional (eu, nessa altura, ainda estava no Nacional e ela também). De facto, os actores não andavam muito pela rua, não tinham um grande contacto com o público e eram mais distantes. O Assis Pacheco, com quem eu, também, trabalhei imenso, defendia que não era boa estratégia o público conhecer bem os actores de perto porque, dizia, perdiam o fascínio ou o encanto. Eu não sou bem dessa opinião, acho que é bom um actor tomar contacto com o público e este com o actor pessoa, pois tal implica um maior contacto humano. Isso já acontecia quando se tratava de uma personagem mais característica, mas, à parte disso, houve uma evolução na maneira como o público passou a ver os actores e, hoje em dia, eu acho muita graça porque é ao contrário. De facto, os pais têm muito orgulho em que os filhos vão à televisão, como aquela senhora que sonhou ser actriz e, portanto, quer por força que a filha o seja porque quer ver o sonho dela nela realizado… conheço vários casos desse género. Eu, já nessa altura em que isso podia ser mais mal visto, tive sempre um grande orgulho em ser actriz porque creio que o actor pode dar imenso às pessoas, através da arte, o teatro é um espelho da vida… são frases feitas, mas é verdade, a pessoa vai ao teatro para se ver retratada, mesmo que não tenha a consciência disso, às vezes, a pessoa pensa que não seria, mas é tocada. Para as coisas chegarem a esse ponto, é determinante o actor ser convincente, mas quando existe essa comunicação do actor/ público é extraordinariamente gratificante e isso sente-se, a respiração do público é palpável. É um dos aspectos que me esqueci de referir- o papel do público, uma vez que o público também tem um papel, porque, às vezes, é muito complicado puxar por eles e parece que os bons vieram todos num dia e os maus todos no outro e, às vezes, basta um despoletar uma determinada reacção para ela se verificar em cadeia, até quando é um momento para sorrir. Eu não faço propriamente um teatro muito alegre, digamos, não faço uma comédia ligeira, mas há certas coisas que merecem um sorriso ou outra reacção qualquer e, basta um despoletá-la, para os outros o seguirem. É muito interessante essa comunicação entre o público. Por vezes, também, acontece uma distracção que nos obriga ao improviso, a termos de alterar criativamente o texto. Isso aconteceu-me numa peça que fiz no Teatro Aberto em Copenhaga, em que um elemento do público, na primeira fila, que estava a dobrar um plástico, me distraiu e, de repente, seguiu-se um silêncio e eu disse: “ai, sou eu a falar” …., todavia, ali, era um teatro arena, o público estava ao pé de nós, mas, de facto, pode acontecer a pessoa distrair-se ou ter uma fuga de memória e tem de improvisar, tem de compor…Agora, já não há, mas, quando eu me estreei no teatro, ainda havia a chamada caixa do ponto, o meu filho viu várias peças aí, como por exemplo, as Meninas de Castro, numa altura em que não era permitida a frequência de menores. Deixando de haver ponto, nós só podemos contar com a nossa memória, como tal, temos de compor muitas vezes, ou de ajudar o outro, ou do outro nos ajudar a nós, como tal, temos de estar muito seguros para que isso não aconteça com frequência.

Quanto ao meu bairro…
Eu nasci, aqui, na Visconde de Valmor, nessa altura, no 38 1º Esq, hoje, 30, aonde os meus Pais e os meus irmãos já viviam há uns anos e lá permaneci até me casar. Depois, durante uns 2-3 anos, vivi longe do bairro, na R. José Estêvão, porque o meu marido já tinha essa casa, mas, mais tarde, mudei-me, de novo, para perto, para a Barbosa du Boucage, tendo-me mudado, depois, para aqui porque tinha mais uma divisão, que era o quarto para o meu filho que, entretanto, já era mais crescido, de maneira que o Rui ainda nasceu na José Estêvão. E aqui estou e estarei, se Deus Quiser, até ao fim, pois este é o meu bairro…
Eu sou da freguesia de S. Sebastião da Pedreira, nessa altura, não existia, ainda, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que só foi inaugurada mais tarde, despoletando uma grande celeuma por ser uma igreja mais moderna e pelos vitrais do Almada, o que atraía muitas atenções e visitas externas, provocando, também, algumas rejeições acaloradas. Eu adoro vitrais, especialmente os do Almada, que são vitrais menos clássicos, digamos assim, e associo-os aos primórdios da Igreja de Fátima. Uma coisa que eu gosto muito é de ouvir os sinos, porque me dá uma sensação de que não estou na cidade, dado que eu passei muitas férias lá em cima, na Beira Alta, e associo os sinos à aldeia. Tenho a impressão de que os meus pais diziam que ainda havia por aqui umas quintas, quando fomos para a Visconde de Valmor, onde eu nasci. Nessa altura, ainda eram avenidas novas, hoje, estão bastante velhas, havendo bastantes casas, infelizmente, já muito degradadas e até devolutas.
Todavia, é o meu bairro e adoro-o, é muito agradável viver aqui pois há de tudo, cá estão as minhas raízes e toda a gente me conhece, é reconfortante ir à Visconde de Valmor ou à farmácia Cardote, que é a mesma farmácia de quando eu era criança, que é muito importante para mim, embora a minha seja esta aqui, que frequento com gosto porque me é mais acessível e com a qual já estou familiarizada, pois são simpatiquíssimos. Mas ainda sinto uma certa ternura quando vou à Visconde de Valmor e passo por aqueles sítios, alguns prédios que ainda estão tal qual e outros que já estão completamente descaracterizados- aquele aonde eu nasci, por exemplo, foi somente restaurado há uns anos… Eu adoro olhar para aquela varanda do primeiro andar, onde eu passei tantas noites, porque, naquela altura, as pessoas estavam mais à janela e lembro-me, ainda, de a minha irmã dali namorar (eu também conto isto nas minhas Memórias). E, por isso, é me tudo familiar e agradável, aqui, no bairro, e não gostaria nada de me mudar, nem que fosse para uma casa muito mais bonita, para um palacete, pois, até, com os livros todos que estão na estante do corredor, seria impossível, agora, mudar-me daqui.
Não esquecendo, também, o meu colégio - o Elias Garcia-, do qual eu tenho imensas saudades, que era na Av. homónima, logo no princípio, a seguir à Av. da República. Lá estudei desde as primeiras letras, até ao 3º ano do liceu, a partir do 4º ano, fui para o Filipa, que se situa, também, aqui no bairro. Foi, de facto, sempre por aqui que eu andei e, ainda agora, as últimas vezes que trabalhei, foi no Teatro Aberto, que, também, já não é desta freguesia, mas de S. Sebastião, porque pertence ao Bairro Azul, mas, de qualquer das formas, situa-se tudo aqui nas imediações, o que é muito agradável.
Aqui há tempos, também, pediram-me um depoimento para um trabalho sobre o Apolo 70…lembro-me muito bem da inauguração do Apolo 70, tinha um cinema aonde assisti a imensos filmes, tendo estado na sua inauguração. Dispomos, também, de outro cinema, aqui, na 5 de Outubro, que, por vezes, frequento - vi lá imensos filmes franceses que permaneciam em cartaz durante muito tempo-, ao qual se juntam o Monumental e um aonde, ainda não há muito tempo, assisti a uma peça de teatro.
O meu marido é que frequenta muito os cafés da zona e já, aqui, temos bons restaurantes- um é de massas italianas e o outro é vegetariano, o que faz com que a zona esteja mais animada, à noite.


Em defesa da Liberdade...

Em 1961, Teófilo Carvalho dos Santos (TCS) e a família foram viver para a Avenida de Berna n.º 21, embora, como era advogado em Alenquer, onde tinha o seu escritório, dividissem a vida entre esta localidade e Lisboa.
TCS foi Fundador do Partido Socialista e deputado pelo PS durante 11 anos, todavia, face ao convite para ministro, recusou, embora tenha aceitado, em 1979, ser Presidente da Assembleia da República, momento em que teve de abandonar a advocacia e o seu escritório. Permaneceu no cargo durante um ano e meio, porém, face a outro acto eleitoral, apesar de frisar que não gostaria de o retomar, voltou a ser eleito, ficando deveras aborrecido! Os outros partidos consideraram que tinha havido irregularidades no processo de eleição, convocando uma nova votação, na qual TCS perde, o que constituiu para si um alívio, afirmando: “Tenho saudades do tempo em que eu advogava”.
A sua vida focalizou-se na busca de uma sólida liberdade pública, que permitisse aos seus conterrâneos ter uma voz activa e audível. O seu amor à democracia e à liberdade nunca esmoreceram face a diversas contrariedades, algumas bastante violentas. Tinha as portas da sua casa abertas para quem necessitasse, à sua moradia em Alenquer acorriam muitas pessoas, diariamente, em busca de comida. Recentemente, um homem disse a Maria Fernanda, sua esposa: “Minha Senhora, eu queria pedir-lhe uma coisa- era que fosse almoçar a minha casa. Eu fui tantas vezes matar a fome à sua casa! Eu, agora, estou bem e tinha muito prazer em que a Senhora fosse lá almoçar comigo.”
TCS faleceu em Lisboa, em 1986, Maria Fernanda vive ainda em Alenquer.


Uma vida, muitas histórias...

AMCV: O meu Pai era delegado do Instituto Nacional do Trabalho, em Viana do Castelo, de onde ele era natural e onde eu nasci, também, aliás toda a família. O meu Pai foi convidado pelo Ministério das Corporações para ficar como Secretário da Junta Central das Casas do Povo de Lisboa e, em 1945, veio com a minha Mãe procurar uma casa, quando estavam já desesperados e quase a desistir de encontrar uma, um dia, foram à igreja de Fátima. O meu Pai era muito amigo do Almada Negreiros e a minha Mãe tinha sido colega da Sara Afonso, a mulher do Almada, dado que foram ambas colegas no colégio de St. José de Cluny. O meu Pai foi um dos primeiros modernistas- em 1916, entrava nos salões modernistas, nessa altura, deu‑se muito bem com o Almada Negreiros e outros como o Jorge Barradas, o Diogo Macedo, etc. Isto é para lembrar a igreja de Fátima, que está tão ligada ao Almada Negreiros.

Os meus Pais foram ao domingo à igreja, à missa, e, quando saíam da missa, olharam para uma casa que estava com escritos, nas janelas, e pensaram: “olha, aqui está perto da igreja” e, aliás, a avenida Marquês de Tomar era, como dizia a minha Mãe, muito farta, era uma espécie de mercado, tinha tudo o que uma cozinha familiar precisa. Assim, foram ver a casa- eram 11 divisões no 1º andar e cheias de sol, nesse dia, estavam cheias de sol, porque havia sol e porque eram horas em que o sol dava em todos os quartos e ficaram encantados-, que era cara, nessa altura, em 1945, pagávamos 1200$, era um ordenado, mas, realmente, a minha Mãe ficou encantada com a casa e resolveram alugá-la. Eu fiquei, ainda, em Viana, com o resto da família, pois havia que esvaziar a casa e mandar os móveis para aqui e rasgar papéis, etc. De maneira que comecei a habitar a casa de Marquês de Tomar em Fevereiro de 1946 e ali fiquei, até este ano, primeiro com a família, depois, com o meu neto.

Nessa altura, ainda não havia a freguesia de Nossa Senhora de Fátima, era a de S. Sebastião, mas o meu Pai, quando foi elevada a freguesia, foi nomeado secretário, foi o primeiro secretário da freguesia e foi-o enquanto viveu. E mais- desenhou a placa que lá está, foi ele que desenhou a placa, a mobília da sala de reuniões, os armários, as encomendas, tudo isso foi o desenho do meu Pai- e começámos, deste modo, a estar muito ligados à Junta de Freguesia. É claro, ali vivi, um grande amigo meu, o David Mourão‑Ferreira, que, nessa altura, conheci, que morava na Defensor de Chaves, quando casou, não sendo baptizado, pediu-me a mim, para ser seu padrinho de baptismo e, assim, foi na igreja de Nossa Senhora de Fátima que o David Mourão‑Ferreira se baptizou e se casou. Portanto, está a ver que foi dessa maneira que estive sempre muito ligado àquela igreja… o meu Pai, também, ajudou muito a igreja de Fátima, era quase como um sacristão, sempre que podia, ajudava a missa e o Prior, de quem era muito amigo. Bem, depois, ali vivi com a família, durante muitos anos. Mais tarde, quando veio o 25 de Abril, nas primeiras eleições, um amigo meu que ia representar o CDS nas eleições desistiu por doença, creio eu, e pediu-me a mim que o substituísse e eu fui nomeado para a Junta de Freguesia e fui tesoureiro, durante 3 anos. Isto foi suponho que em 76-77-78. Como vê, estou muito ligado à freguesia… Na altura, quando estava na direcção da freguesia como tesoureiro, criámos o mercado, mesmo no meio da rua, com umas bancas.

Depois, a uma dada altura, não me recordo quando, o Vasco Lima Couto foi morar, também, para a freguesia e, quando lhe quiseram fazer uma homenagem, depois da sua morte, convidaram-me a mim para fazer uma conferência sobre ele. Isso foi feito no Palácio Galveias e eu representei, de certa maneira, a freguesia para falar do Vasco, que eu conhecia desde a adolescência, porque ele era do Porto e eu sou de Viana do Castelo, mas a minha irmã mais velha casou no Porto e, como escritora, também, que era, conhecia-o e pôs-nos em contacto.

LM: Olhe, conte-nos, também, uma história engraçada, um episódio engraçado ligado à sua vida actual, aos livros que escreve…

AMCV: Eu sou um homem do teatro, também, não é verdade? Nos anos 70, em dois anos, fizemos, igualmente, a convite da freguesia, no dia 10 de Junho, uns espectáculos no bairro de Santana, no teatro Vasco Santana, que pertence à antiga Feira Popular, e, também, ali, fiz conferências, palestras, com crianças, falando sobre Camões, até com a colaboração da actriz Cecília Guimarães, que lia os textos. Suponho que um outro ano foi no chamado Teatro Aberto, ali, na Praça de Espanha, a pedido da junta de freguesia. Representaram peças infantis minhas, pois, durante 20 anos, dirigi uma companhia de teatro infantil - o Teatro Girafales- que, nessa altura, tinha acabado porque, depois do 25 de Abril, não me concederam mais subsídios, alguns actores, como Joel de Carvalho e outros actores novos, muito novos, então, evidentemente, pediram-me para continuar

Bem, então, vivi naquela rua quase 60 anos, desde 1946 a 2007. Há muitos episódios engraçados dessa vivência- recordo-me quando consegui ter o meu primeiro carro, o carro era velhíssimo, era um carro da Segunda Guerra Mundial, às vezes, parava ali à frente das lojas, não tinha bateria e não tinha, também, dinheiro, e os comerciantes da rua vinham pedir à minha Mãe para que eu tirasse o carro, que era uma vergonha, que lhes estragava o negócio, pois estava tão sujo, tão imundo, diante dos próprios estabelecimentos… Eu lá convencia alguns rapazes, hoje, grandes actores, o Francisco Nicholson, o Rui Mendes, que eram da minha companhia e aliciavam gente- “eu vou dar um passeio com o meu carro, mas vocês têm de o empurrar”- e lá era a maneira de libertar o estabelecimentos daquela poeira, escreviam-me: “porco”, chegava a evitar passar junto do carro, porque tinha vergonha.

Era curioso, com certeza, aquele bairro era um bairro de teatro, de gente de teatro- lá vivia o João Perry, a Teresa e o João do Teatro da Comuna, vivia o Lopo de Carvalho, vivia a Mirita Casimiro, a Carmen Dolores, que ainda vive, o irmão, o Sarmento e a mulher, o Barreto Poeira da tabacaria, ali, em frente à minha casa. Havia um grupo de muita gente de teatro que ali vivia, na Marquês de Tomar, mas, também, escritores, como o Armindo Rodrigues, o Tomás Figueiredo, o Manuel Alegre, o David, mas que, depois, se mudou para a Poeta Mistral, onde viveu muito tempo, o Vasco Lima Couto. Ou seja, havia uma selecção de artistas e escritores, ali, que, dificilmente, se encontram noutro sítio, um agrupamento tão grande! Ainda há dias, estive, ali, na tabacaria...

LM: E actualmente? Acabou de escrever um livro para crianças…

AMCV: Acabei de publicar um livro para crianças, tenho um livro na Fundação Oriente para publicar e um livro de contos que vai ser lançado, agora, um livro de poesia, também, acabado, mas, como dizia o Pedro Homem de Mello, gosto de acabar uma prova tendo outra começada, de maneira que tenho prazer em rematar um livro, mas já tendo outro começado, mesmo para eu ter a própria noção da continuidade, não há um ponto final...

LM: Não nos quer deixar algum poema seu?

AMCV: Olhe, posso deixar… Como estamos próximos do Natal, quer que lhe leia um poema inédito de Natal? Ora, escrevi-o, também, na freguesia numa tertúlia literária, a tertúlia do Rio da Prata, que é ali na Conde Valbom. Continuámos a publicar no Natal uns livros colectivos e todas as quartas-feiras reuníamo-nos na Rua da Prata- tínhamos poetas, escritores, músicos, alguns autores impressionistas e continuámos a publicar e, este ano, pediram-me um poema para o livrinho colectivo.

Para o Natal de hoje,

O meu Natal é o Natal da igreja e o presépio da sala,

Sem passar pela loja,

Onde a usura festeja o escolher da prenda e o comprá-la,

Pois não tem Pai Natal o meu Natal, tal como agora o tem,

Vive no antigo Portugal e veio de Belém.

Católico, na fé é que me fere a afirmação do ateu

De que o Natal É quando o Homem quer, não,

O Natal É quando o Quis o Céu…

LM: Muito bem, muito bem, muito bonito mesmo. E isso já foi publicado ou não?

AMCV: Não, não, isto é para este ano…

LM: Quando Quis o Céu, exactamente, o Natal É quando o Quis o Céu…Quando Deus Quer e não quando o homem quer…

AMCV: Quando Deus Quer e quando Deus Quis...

LM: E quando Deus Quer…

AMCV: Claro, todos os anos… mas é um nascimento, agora, o Natal É quando um homem quer? Está mal, o Natal É no dia 25 de Dezembro, porque o Natal É o Nascimento de Cristo, não É outra coisa, o termo Natal significa o Nascimento…o Natal É quando o homem quer? Não É, isto não se diz, isto não é correcto, isto é um disparate que anda na boca de toda a gente…o Natal É quando um homem quer? O Natal É só um, o homem pode querer outras coisas e fazê-las, muito bem e é bom que o faça, agora, o Natal tem de o respeitar, É aquela a data, como a Páscoa, não É quando o homem quer a Páscoa…

Dar Vida aos Livros

Em 1971, David Mourão-Ferreira (DMF) mudou-se para a Av. Júlio Diniz, numa época em que as avenidas novas estavam repletas de selectos palacetes e jardins, para uma casa muito ampla. Quando a viu, DMF exclamou: “Agora, é que vou ter espaço!”, mas, passado um ano, o mesmo já era reduzido, pois a casa estava cheia de papéis e livros.

DMF escreveu muitas das suas obras nessa mesma casa, elegendo o escritório como espaço do seu labor literário, até ao dia em que este estava já tão saturado de livros e documentação que passou a escrever na casa de jantar.

A casa, nessa altura, estava sempre cheia de gente, particularmente no Natal, e, na Consoada, era DMF a distribuir as prendas, parecendo um leiloeiro, e todos se divertiam muito.

O poeta viveu ali até morrer, em 1996, legando-nos uma importante obra literária, tendo sido a poesia o género primordial da sua incomparável e talentosa expressão literária. Escreveu para vários jornais e revistas, tendo desempenhado um cargo no governo como Secretário de Estado da Cultura (de 1976 a1979). Foi autor de alguns programas de televisão e de letras para vários fados imortalizados pela voz de Amália Rodrigues.

DMF foi um homem apaixonado, tumultuoso, embora delicado e sensato na sua obra.


Ânsia de viver...

Ary dos Santos viveu na Av. Júlio Diniz, mas cedo saiu de casa. Começou a escrever, precocemente, aos 15 anos, revelando uma personalidade entusiasta, rebelde e irreverente. Gostava de provocações inteligentes, da sátira contundente, mas, quando se entregava, fazia o com alma, tinha um espírito livre, excêntrico, não permitia que o acorrentassem, sendo, talvez por isso, um solitário. Derramava-se num mar de palavras, de emoções, de poemas, que enunciavam encontros e desencontros, lágrimas escondidas em sorrisos.
ADS nunca conseguiu ultrapassar o facto de sua mãe ter morrido muito cedo, quando ainda era criança. E, nas vésperas da sua morte, escreveu o poema “Infância”.


Paixão pela Medicina...


O Dr. Pedro Nunes, actual Bastonário da Ordem dos Médicos, nasceu no n. 63 da Av. Visconde Valbom, num prédio residencial, hoje, a sede do Secretariado Nacional de Reabilitação. O seu Pai, oriundo de Castanheira de Pêra, veio com 14 anos para Lisboa em busca de trabalho, iniciando a sua actividade como ajudante numa mercearia na Av. Visconde Valbom que, mais tarde, adquiriu, assim como um restaurante e uma tabacaria. Posteriormente, os seus pais foram viver para a Estrada da Luz, mantendo as lojas na mesma zona, regressando, depois, para o nº64 da Av. Visconde Valbom, onde, hoje, a sua mãe e a sua avó ainda vivem, o que fez com que toda a sua vida se desenrolasse ao redor destes espaços. Viveu lá até 1977, hoje, vive no Lumiar, mas mantém uma proximidade com a freguesia, continuando, por exemplo, a frequentar o barbeiro sito na Av. Miguel Bombarda.

Certo dia, quando o seu Pai lhe perguntou como vislumbraria o futuro, se pretenderia assumir os negócios familiares, tomou a decisão de seguir Medicina e, sabendo os seus pais da sua vocação e, sendo a sua Mãe enfermeira, apoiaram‑no integralmente, o que os fez libertarem-se dos estabelecimentos comerciais. Formou‑se, então, em Medicina, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa, especializando-se em oftalmologia, no Hospital Egas Moniz. Mais tarde, tornou-se docente em disciplinas do Curso Geral de Medicina e abriu um consultório de oftalmologia, em Castanheira de Pêra, onde pensava sedear-se em termos profissionais. Hoje, as suas obrigações como Bastonário da Ordem dos Médicos não lhe permitem exercer Medicina em pleno nos seus consultórios.

“A Riqueza do Património da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima”

A riqueza patrimonial da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima assenta na grande qualidade das singulares peças arquitectónicas que a constituem, seis das quais já foram agraciadas com o Prémio Valmor, instituído pelo segundo Visconde de Valmor, um diplomata e político novecentista devotado ao mecenato artístico.

Estes seis aprimorados edifícios galardoados com tão prestigiante distinção são, por ordem cronológica de construção: o Clube dos Empresários, da autoria de Miguel Ventura Terra (1906); a Central do Banco de Investimentos, da autoria de Miguel Nogueira (1913); o Prédio de Luís Rau (1923), o Prédio de Félix Ribeiro Lopes (1929) e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de Porfírio Pardal Monteiro (1938), esta última com vitrais e pinturas de Almada Negreiros; a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), da autoria de Gonçalo Ribeiro Telles e António Barreto (arquitectos paisagistas) e Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Jervis Athouguia (arquitectos) (1975).

A FCG oferece condições ímpares aos visitantes que aqui podem usufruir da harmoniosa simbiose entre a frescura da natureza circundante e as iniciativas culturais de grande projecção nacional e internacional promovidas por esta prestigiada instituição, que muito honra esta freguesia.

PRÉDIO DE LUIS RAU

É nos nºs 49- 49D da actual Av. Da República que encontramos o Prédio de Luís Rau, seu financiador e promotor, que o encomenda em 1920 ao prestigiado arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, o mesmo que desenhou a planta da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Finalizado em 1923, dois anos mais tarde, em 1925, é-lhe atribuído o Prémio Valmor correspondente ao ano da sua conclusão, sendo o parecer assinado por Alfredo de Ascensão Machado, Adães Bermudes e Cristino da Silva, membros do júri de então.

Este edifício destaca-se naquela cosmopolita e nuclear avenida lisboeta por uma distintiva arquitectura eclética, ainda que caracterizada por uma clara influência estética francesa, ao impor-se magistralmente pela elegância do seu traçado e pelo conjunto harmonioso dos elementos decorativos da sua fachada.

Este Prédio de planta rectangular de 5 pisos, acrescidos de cave mais a mansarda de telha de xisto preto de inspiração claramente parisiense, pulvilhado de magníficos pequenos varandins em ferro forjado, encontra-se, actualmente, num óptimo estado de conservação, conjugando quatro componentes funcionais díspares e complementares- a habitacional, a comercial, a dos serviços e a do equipamento escolar.


Praça de Touros do Campo Pequeno

A Praça de Touros do Campo Pequeno, o primeiro espaço de entretenimento do género a nível nacional, projectada pelo Arquitecto António José Dias da Silva e inaugurada a 18 de Agosto de 1892, afirma‑se, desde logo, como um dos edifícios mais emblemáticos desta cidade intemporal e potencialmente intercultural. Com efeito, esta nossa cosmopolita urbe que, ao longo dos tempos, acolheu hábitos e costumes tão ricos e distintos, elege esta Praça como um dos seus ex libris, essencialmente, pelo seu esmerado estilo arquitectónico de traça neo‑árabe, com cúpulas e torreões semelhantes aos das mesquitas muçulmanas, que a faz destacar‑se como uma das mais eminentes referências sócio‑culturais na dimensão lúdica da vida dos munícipes lisboetas.

Este magnífico espaço lúdico de influências estéticas árabes, que se estende por uma área aproximada de 5000 metros quadrados e um redondel de 80 metros de diâmetro, após as obras de remodelação efectivadas na era de 90, que vêm colmatar um período de relativa deterioração, passa a poder acolher entre 7.000 e 10.000 espectadores e a estar dotado de novas funcionalidades que lhe permitem não só continuar a exercer a sua função referencial primacial, como, também alargar as áreas de actividade que, condignamente, acolhe. Para o efeito, este espaço de excelência não só é recuperado ao nível das suas infra‑estruturas básicas, como é, também, reconvertido de forma a permitir o acolhimento de iniciativas de índole multifacetada, sendo que o seu tecto de cobertura permite a realização de eventos em qualquer estação do ano, oferecendo um esmerado nível de conforto aos seus visitantes.

De facto, os autores deste projecto de reconversão (o Arquitecto José Bruschy, que conta com a colaboração dos seus colegas Pedro Fidalgo, Filomena Vicente e Lourenço Vicente) incluem uma galeria comercial com cerca de 60 lojas, 10 bares, esplanadas, 8 salas de cinema e um parque de estacionamento para 1.250 viaturas, novas funcionalidades que reforçam o carácter polivalente desta renovada, emblemática e renascida Praça de Touros do Campo Pequeno.

Assim, actual e diariamente, ao Centro de Lazer do Campo Pequeno e à sua magnífica sala de espectáculos, com capacidade para 10.000 pessoas, desloca-se um número considerável da população da cidade de Lisboa, que os converte em principais pólos de entretenimento da capital. Entre os diversos e variados eventos que aqui decorrem destacam‑se os eventos de moda, desportivos, concertos de música ao vivo, entre outros de grande projecção.


EDIFÍCIO CENTRAL DO BANCO DE INVESTIMENTO SA

É no cruzamento entre a Avenida da República e a Avenida João Crisóstomo que se situa a sede de uma instituição financeira nacional de primordial relevância, a Central do Banco de Investimentos, SA, cujo edifício original, mandado construir por José A. Santos, foi concebido pelo traço do arquitecto Miguel Nogueira, como estrutura habitacional em regime plurifamiliar. Este elegante e funcional edifício, cuja aprimorada construção terminou no primeiro quartel do séc. XX, recebeu, no mesmo ano de 1913, o prestigiado e ansiado Prémio Valmor, destinado à promoção de obras arquitectónicas nacionais de elevado e inovador sentido estético.

A sua imponente estrutura arquitectónica de estilo Art Nouveau, ainda hoje em óptimo estado de conservação, inclui uma magnificente fachada decorada por esculturas integradas e ferro forjado magistralmente desenhado, revelando o magnífico e distintivo telhado uma clara inspiração em águas‑furtadas parisienses revestidas a negro xisto.

Palácio Galveias

O Palcio Galveias, convenientemente localizado em plena Praa do Campo Pequeno, alberga presentemente a Biblioteca Municipal

O magnífico Palácio Galveias, localizado na esplendorosa Praça do Campo Pequeno, acolhe, presentemente, a Biblioteca Municipal Central, que contém o espólio bibliográfico da Câmara Municipal de Lisboa. Este esplêndido Palácio, datado de meados do Século XVII, foi mandado erigir por um membro da martirizada família Távora, quando da tragédia que se abateu sobre a sua Casa, pela perseguição que lhe foi movida a mando do Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, condenandoa à tortura e ao ostracismo na Corte, no decurso do Reinado de D. José I. Por conseguinte, após a conclusão do chamado “Processo dos Távora”, os bens da família foram tomados pela coroa, mediante a realização de um processo de liquidação judicial, que alienou a propriedade em hasta pública. No início do Século XIX, os novos proprietários tiveram, igualmente, alguns problemas com a Fazenda Pública, pelo que a propriedade foi adquirida por João de Almeida Mello e Castro, o futuro 5ª Conde de Galveias que, entretanto, associaria o seu nome nobiliárquico de família ao Palácio, tendo sido, posteriormente, nos finais do século, adquirido por um abastado e poderoso homem de negócios, de seu nome Brás Simões.

Assim, apesar das suas nobres e elevadas origens, esta magnífica propriedade foi objecto, durante algumas décadas, de algum abandono, o que motivou a intenção da edilidade lisboeta, em Janeiro de 1928, de encetar negociações com a empresa proprietária no sentido de ser atribuída uma finalidade de índole cultural a este secular imponente monumento. Para o efeito, procedeuse a obras de restauro no Palácio, bem como na propriedade circundante, e, em Julho de 1931, o mesmo seria reinaugurado na qualidade de Arquivo HistóricoCultural, Biblioteca e Museu da Cidade de Lisboa. O vasto espólio deste Palácio inclui, entre muitos outros bens dignos de registo, inúmeros painéis de azulejaria da autoria de Leopoldo Batistini, a colecção de arte sacra e a notável colecção de gravuras, desenhos e plantas de Lisboa. Actualmente, o Palácio Galveias mantém abertos a um público cada vez mais informado e interessado por inovadoras iniciativas culturais multifacetados e polivalentes espaços que o convertem num monumento primacialmente vocacionado para a promoção da arte, da cultura e da comunicação global humana: a Sala de Leitura de Referências, a Sala de Leitura de Periódicos, a Sala Infantil, o Espaço Multimédia e, por último, a Sala de Leitura Geral. Com efeito, muitas exposições de renome internacional têm recebido um fantástico acolhimento neste espaço que alberga séculos de tradição e de cultura, agora, democraticamente, acessível aos olhares e à presença assídua dos munícipes desta cidade que se afirma, hoje, como um núcleo crucial dos roteiros turísticos globais.


PRÉDIO DE FÉLIZ RIBEIRO LOPES

No 2º quartel do séc. XX, mais precisamente em1929, em vigência da magistral influência do eclético movimento estético da Art Deco, baseado em conceitos como o da elegância, simplicidade e funcionalidade, sob as ordens e financiamento de Feliz Ribeiro Lopes, é edificado um soberbo edifício, que ficou conhecido como o Prédio do seu promotor financeiro, sob o esplêndido traço do famoso arquitecto Porfírio Pardal Monteiro.

Sito na actual Av. 5 de Outubro, ocupando os nºs 207 a 215, este imponente edifício de três pisos, destinado a propósitos habitacionais, a cujo equilíbrio das proporções se junta uma harmonia decorativa que lhe confere uma relevante elegância arquitectónica, caracteriza-se ainda pelo apuramento estético das suas varandas de ferro forjado, assim como dos painéis e frisos decorativos, que lhe conferem um glamour claramente exclusivo. Traços distintivos que legitimam inteiramente a atribuição do Prémio Valmor a mais uma obra que valoriza a freguesia de Nossa Senhora de Fátima, exactamente no mesmo ano da sua conclusão, em 1929.

CLUBE DOS EMPRESÁRIOS

O edifício mandado erigir pela Viscondessa de Valmor no início do séc. XX, em 1906, da autoria do arquitecto Miguel Ventura Terra, distinguido pelo Rei com o compasso que pertenceu a João Frederico Ludovico, inicialmente destinado à habitação plurifamiliar, acolhe, hoje, a sede do distinto Clube dos Empresários, sito em plena Av. da República, uma das artérias nucleares lisboetas com mais glamour.

Em termos arquitectónicos, este elegante e esteticamente depurado edifício, em muito bom estado de conservação, destaca-se por uma original implantação da planta traçada, aprimorada pelo sofisticado revestimento a pedra clara, bem como pela magnífica decoração das fachadas, nomeadamente no que concerne ao frontão central, que se distingue pelo fenomenal painel de azulejos, decorado com motivos Arte Nova e pelo soberbo friso escultórico.

Em 1906, este esplêndido e requintado Palacete, então denominado Casa Viscondes de Valmor, é galardoado com o prestigiado homónimo Prémio Valmor, que o distingue pelo estilo arquitectónico eclético próprio da Art Nouveau.

Segundo parecer do júri, o imóvel destaca-se por uma «(...) perspectiva agradável do cruzamento de duas artérias (...)», pela «(...) a boa e lógica proporção (...)» das formas.







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